Xuxa envelheceu. Nós também.
Por que isso incomoda tanto?
O “Último Voo da Nave”, as críticas à aparência de Xuxa e uma reflexão de Rossandro Klinjey nos convidam a pensar sobre a maneira como encaramos o nosso próprio envelhecimento.
Xuxa Meneghel voltou ao centro das atenções com a turnê “O Último Voo da Nave”, que revisita um dos símbolos de sua trajetória e da memória afetiva de milhões de brasileiros e junto com a emoção e a nostalgia, vieram os comentários sobre sua aparência: rugas, corpo, roupas, cabelo e idade.
Aos 63 anos, vê-la envelhecer publicamente parece incomodar algumas pessoas muito além da estética.
Foi nesse contexto que uma análise do psicólogo Rossandro Klinjey me chamou a atenção: Xuxa não é apenas uma artista que envelheceu. Ela também funciona como um marcador do tempo.
Em entrevista à Vogue Brasil, Xuxa afirmou que está envelhecendo diante das pessoas e que, para algumas delas, admitir isso significa perceber que elas também estão envelhecendo.
Talvez, quando alguém diga: “Xuxa está velha.” “Olha as rugas.”“Essa roupa não combina mais com a idade dela.”
A verdade não esteja apenas em Xuxa e sim estejamos diante da nossa dificuldade de aceitar a passagem do tempo.
E aqui entramos em uma questão fundamental quando falamos de longevidade: o Idadismo/Etarismo.
Envelhecer é um processo natural da vida. Ainda assim, continuamos tratando os sinais do envelhecimento como se fossem defeitos que precisassem ser escondidos. E essa cobrança se torna ainda mais evidente quando falamos das mulheres.
Envelhecer sob julgamento
Existe uma contradição difícil de ignorar.Espera-se que a mulher envelheça — afinal, o tempo passa para todos —, mas muitas vezes não se aceita que ela pareça ter envelhecido.
Se tem rugas, é criticada. Se faz procedimentos para diminuí-las, também é criticada.Se usa determinadas roupas, alguém diz que “não tem mais idade”. Se mantém sua sensualidade, é julgada.
A própria Xuxa falou sobre essa cultura de julgamento.

Por que temos tanta dificuldade em permitir que as pessoas simplesmente envelheçam?
Não precisamos romantizar a velhice nem negar as transformações que acontecem ao longo da vida.
O corpo muda.A aparência muda.A vida muda.Mas mudança não significa desaparecimento.
E idade não deveria determinar o momento em que alguém deixa de poder ocupar um palco, usar determinada roupa, trabalhar, criar, aprender, amar, começar novos projetos ou simplesmente escolher como deseja viver.
A nave pode pousar. A mulher continua.
Há uma simbologia forte no próprio nome do espetáculo: “O Último Voo da Nave”. A nave marcou uma época e a memória afetiva de milhões de brasileiros. Agora, pode fazer seu último voo.
Mas a nave pode se aposentar. A mulher não.
Talvez essa seja uma das liberdades da maturidade: não precisar permanecer preso à imagem de quem fomos para continuar tendo valor no presente.
E a reflexão de Rossandro Klinjey nos deixa uma pergunta que vai muito além de Xuxa:
Quando criticamos o envelhecimento do outro, será que não estamos revelando também o nosso próprio medo de envelhecer?
Talvez o que incomode não sejam as rugas de Xuxa. Talvez elas apenas nos lembrem que o tempo também passou para nós.
Reconhecer isso não é vergonha. É trajetória. É maturidade. É vida.
Xuxa continua. E nós também.

Madis
Consultora em Comunicação e Longevidade
Criadora do Envelhecer com Estilo®