ESTADO CIVIL -POR- FELIPE GESTEIRA

Abaixo os papéis!

Minha indignação refere-se tão somente à limitação que um formulário impõe quando pergunta “estado civil” e só oferece quatro opções como respostas possíveis. Daí a parcela de culpa do papel, pois é dele a origem da informação, e é por ele que se classifica o momento conjugal, a liberdade, a expectativa, a dor e o amor de formas tão simplórias.

Ora, se não é resumida a euforia de tudo o que está por vir, por se viver, conhecer, amar, e até a ansiedade dos últimos dias quando se está, para sempre, prestes a deixar de ser solteiro. Uma palavra para amassar a juventude inteira.

E da fase seguinte, o que dizer? Casado é pouco para abreviar a perspectiva de um grande amor que começa, agora, a andar junto em uma fase mais madura, sob o sonho de ser eterno, ou ao menos verdadeiro, enquanto dure.

Aos divorciados, também é injusto. Um vocábulo sozinho para fundir a morte do amor que se foi e a beleza do que está por vir, pois há quem caia na esbórnia e não queira mais nada disso, como há quem renove sua esperança por um novo final feliz. Amor próprio ou amor novo, aí são dois amores condensados por um só estado.

Aos viúvos, que perderam seu grande amor, não há jeito, só luto, e como é triste sintetizar a condição de quem viveu uma jornada a dois em uma só solução.

Que se mantenham os papéis, e mudem os formulários para espaços abertos de livre preenchimento. Digo por mim, que hoje, como estou, ou no amanhã, pós-pandemia, casado, como espero estar, não me enquadro em nenhuma das formas possíveis previstas no código civil brasileiro.

Se pudesse responder livremente, pediria mais espaço para dizer que, sob overdose carolina, vivo em estado de graça;

das borboletas que resolveram não sair jamais do meu estômago, e todos os dias me trazem de volta o estremecimento da adolescência;

do sorriso estacionado no rosto;

de encantamento diário,

de desejo contínuo;

da certeza que será incrível mais um dia que começa, ou, ao menos, o melhor possível, pois assim são nossos dias;

de perplexidade ao olhar para dentro e me reconhecer nos olhos dela, como se tudo em nós fosse espelho um do outro;

estado de todas as artes, já que só de poesia, como defende o poeta paraibano, é pouco para expressar o que gozamos.

Aos papéis, os quero como o tanto que já tenho, e em breve teremos. Eles e tudo o mais.

Uma história de amor é algo grande demais para se fazer caber sentenciada dentro de um único termo.

Felipe Gesteira

Jornalista, fotógrafo e consultor. Escreve desde poemas de amor a ensaios sobre democracia e liberdade.

É editor no site Termômetro da Política e autor de “Emagreça bebendo cerveja”.

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