IDADISMO -DESTROI PONTES E MATA SABEDORIA-POR ANNA MARIA OLIVEIRA

Idadismo – Destrói pontes e mata a sabedoria

“ Tempo Rei … transformai as velhas formas do viver…”

Gilberto Gil

A vida humana é a uma das expressões dos ciclos da natureza.

O tempo de arar, semear, colher, saborear o fruto e recomeçar o processo de cuidado com a terra são práticas para a produção de alimentos, se respeitadas trazem fartura!

Assim somos nós, também, vivemos as estações da vida, cada uma delas com sua particularidade, aprendizagens, desafios e beleza.

Sabedorias milenares, reverenciavam os saberes e as experiências de mulheres e homens “mais velhos”, os mestres, aqueles que tinham a missão de ensinar, pelo exemplo, as novas gerações sobre a importância de honrar a cultura da comunidade, sobretudo o respeito aos que chegaram primeiro.

Tive o privilégio divino de conviver com minha avó paterna até quase os 106 anos dela, lúcida, amorosa, referência da família, deixou o corpo físico sem dor, sem sofrimento… a energia esgotou e ela precisou seguir sua jornada, seu legado está nos corações de todos que a amaram e admiraram. Sua sabedoria era partilhada pelo seu exemplo e por suas orientações firmes e amorosas.

A humanidade vive uma crise de valores cruel onde a indiferença, o preconceito e a exclusão são bandeiras honradas em todos os cantos do planeta e esse ciclo precisa ser quebrado, a disruptura é uma questão de sobrevivência planetária.

Então, porque falar, educar, refletir e articular ações anti idadismo são de extrema relevância?

“Na sociedade moderna, a velhice, mesmo quando não associada à pobreza ou à invalidez, tende a ser vista como uma fase dramática e indesejada, seja pela sociedade, seja pelos poderes públicos”.

(Estud. interdiscipl. envelhec., Porto Alegre, v. 19, n. 3, p. 853-877, 2014)

Promover educação formal e não formal multidisciplinar é um dos caminhos para criar disruptura dos dizeres sobre velhice, longevidade com qualidade, vida digna ao ser humano em todas as fases da vida.

O relatório Jacques Delors (validado pela ONU), apresenta as aprendizagens essenciais para a vida no século XXI, evidencia que aprender a aprender é para a vida toda, ou seja, desde de a educação infantil até a maturidade (sem limite de idade).

A sociedade que não respeita e investe na sabedoria dos mais “velhos” adoece, torna-se desnutrida e desprovida de identidade, propósito e sentido.

Inevitavelmente, o ciclo da vida, conduz o corpo a reduzir sua juventude e energia vital, porém isso não deveria significar incapacidade criativa, produtiva, afetiva e empreendedora.

Idadismo é preconceito, destrói pontes e mata a sabedoria, seja em ambiente familiar, atendimento de saúde, relações afetivas, políticas públicas, campanhas publicitárias, etc.

(…) o processo se configura, injustificável em sua permanente ocorrência; justamente por não ter absolutamente qualquer fundamento um olhar preconceituoso que atente contra as relações humanas, em particular no detrimento de uma relação intergeracional bem-sucedida. Preconceito que resulta de uma condição de ignorância de um ser humano para com outro ser humano: em sua condição subjetiva, alguém, por ter mais idade, não deixa de ser um homem ou uma mulher. A atitude preconceituosa demonstra intolerância ao que se apresenta, de alguma forma, aparentemente diferente de si próprio, como se a ação de fatores inexoráveis (passagem do tempo, contexto de vida e trajetória pessoal), não afetassem similarmente a todos os seres humanos (…)

(Estud. interdiscipl. envelhec., Porto Alegre, v. 19, n. 3, p. 853-877, 2014)

Fiquemos atentos as expressões como:

  • “O velhinho da banca de jornais”
  • “Que bonitinha é essa velhinha”
  • “Cuidado vovó, deixa que eu faço isso”
  • “Vovô, essa roupa não está legal”

A quem interessa a exclusão de mulheres e homens, a partir de 50 anos, do mercado de trabalho, da vida econômica, cultural e social? O mundo está envelhecendo, o Brasil está envelhecendo.

(… )Na sociedade moderna, a velhice, mesmo quando não associada à pobreza ou à invalidez, tende a ser vista como uma fase dramática e indesejada, seja pela sociedade, seja pelos poderes públicos. Nada mais que uma construção social,nos termos de Groth (2003). Segundo ele, a imagem que se tem dos idosos até o presente possivelmente nasceu na sociedade industrial, momento em que se configurou sob um ponto de vista puramente cronológico. Cronologização essa que permite correlacionar a idade com o que se deve fazer em cada fase da vida. Ou seja, consta de nossas expectativas que as crianças devam frequentar a escola, os adultos devam trabalhar, casar e ter filhos. Nada resta, porém, de papel instituído socialmente para os idosos, desconsiderando-se, dessa forma, atributos e potencialidades individuais.

Assim é que se tem a velhice como uma concepção historicamente estabelecida na dinâmica das atitudes, crenças, valores e mitos da sociedade, cujo indicador social é manter-se em oposição à juventude, o que explica a oscilação entre idealização e descrédito ao idoso (…)

(Estud. interdiscipl. envelhec., Porto Alegre, v. 19, n. 3, p. 853-877, 2014)

Portanto, diante do aumento da perspectiva de vida, a longevidade é uma realidade escancarando a importância de revisar conceitos, generalizações, cronologias etárias, crenças de séculos passados que se arrastam distorcendo o campo de possibilidades e desafios de se viver mais e melhor.

Fortalecer ações e movimentos a favor de direitos e dignidade dos longevos é ato de cidadania e respeito, para além do discurso de “cuidar” e “proteger”.

(…)acreditamos que, assumindo um olhar diferenciado voltado a formas produtivas de relação entre as pessoas, teremos um compartilhar harmônico com respeito às diferenças individuais entre os seres, perspectivando um futuro mais promissor, ético e justo, com vistas, assim, a uma sociedade que seja adequada a todas as pessoas e idades (…)

(Estud. interdiscipl. envelhec., Porto Alegre, v. 19, n. 3, p. 853-877, 2014)

Abraço carinhoso,

Anna Maria de Oliveira, Licenciada em Pedagogia, Especializada em Gestão Escolar, Arte Educadora, Professora Formadora, Professora de Meditação e Yoga Lúdico na Educação, Consultora, Colunista site EuSemFronteiras, Revistas BlahPsi e Statto. Praticante de Meditação e Yoga, Palestrante e formadora voluntária na Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, UMAPAZ desde 2017. Founder e Curadora de Projetos da Academia (Desenvolvimento Humano para Autogestão, da Infância a Maturidade).

 

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